A história moderna não é a história da tecnologia. É a história de como que o capital, querendo encurtar tempo de produção e circulação de mercadorias, criou a tecnologia propícia para tal feito. Essa tecnologia faz linguagem, dinheiro e trabalho adentrar pelo caminho ligeiro da infosfera. Sabemos disso. Todavia, quando queremos que uma mensagem chegue rápido ao seu destino, a técnica melhor continua sendo uma que nada deve aos modernos: a fofoca.
Trata-se de uma técnica e de uma tecnologia antiga, e que perdura. Atravessou todos os modos de produção e reprodução da vida social.
A fofoca tem dois requisitos. Deve ser uma narrativa sobre algo extraordinário. Deve ser contada como quem conta um segredo. Como isso se desenvolve?
A vida humana não é uma vida de aventuras, mas um itinerário de rotina. Somos seres de hábitos. Até os aventureiros fazem do seu quotidiano um conjunto de hábitos. Se pego uma caravela para singrar mares, o meu quotidiano no navio – fora uma tempestade – é um tédio. Uma viagem espacial, mais tediosa ainda. Quando posso quebrar tal monotonia? Isso ocorre no momento em alguém chega ao pé do meu ouvido para dizer algo que fuja do ordinário. O extraordinário é o cerne da fofoca, o que me deixa enlouquecido para passar adiante. Fico com uma deliciosa sensação de afastamento do marasmo do dia-a-dia ao escutar o extraordinário. Não é algo necessariamente grandioso, mas deve fugir do corriqueiro. Preciso logo passar adiante, para que o prazer de ouvir a história, agora contada por mim, se reproduza. Todos nós precisamos de doses de endorfina, ainda que sejam ministradas homeopaticamente.
Contar algo extraordinário é o ponto inicial da fofoca, mas não o único. É necessário que a fofoca seja contada no sentido de valorizar o ouvinte. Ele deve ter a sensação de que está escutando algo que ninguém sabe, que agora só ele sabe. Ambos, o que conta e o que escuta, cultivam o autoelogio. São pessoas que estão desesperadas para se sentirem inteligentes e, por isso, partilham segredos que são veiculados “por fora do sistema”. Por isso as teorias da conspiração andam depressa, elas sempre são contadas como segredos revelados a um grupo de iniciados, a um grupo afinado ideologicamente, ou simplesmente um restrito grupo de amigos. O grupo pode ser enorme do ponto de vista quantitativo, mas precisa ser um grupo que se pareça seleto. A fofoca é como uma senha: você a recebe e, então, sente que as portas se abriram para que você adentre uma sala cheio de pessoas solidárias, que querem sua presença.
A técnica e a tecnologia da fofoca são breves narrativas que têm de garantir o êxtase e a autovaloração. A fofoca é do âmbito da técnica, mas quase se confunde com uma arte. Há pessoas que se especializam nessa tarefa. Sabem fazer o quotidiano se romper. Sabem fazer quem escuta a fofoca ter a certeza de que foi integrado, foi abraçado, foi tido como merecedor do compartilhamento de algo importante. Sentir-se integrado em algo maior é a base da fofoca, tanto por quem escuta quanto por quem conta. Aquele que não tem necessidade de ser integrado em um grupo, não é suscetível à fofoca. No entanto, quem não precisa ser integrado em um grupo? Existe essa pessoa? Não! O homem é animal de rebanho. Nietzsche nos avisou disso, e ele sabia das coisas.
As religiões e as grandes ideologias que conseguiram adeptos podem ter sido formadas por ideários gloriosos ou mesquinhos, isso tanto faz diante do modo de propagação que as fez alcançarem êxito. Foram transmitidas por fofoqueiros, jamais por grandes discursos racionais. Não há quem não escute uma boa fofoca. A boa fofoca não é contada como fofoca. Ela tem o caráter de dádiva. Quem a recebe deve se sentir merecedor de um evangelho sorrateiro.
Às vezes chegamos a pensar que a fofoca tem a ver com a narrativa sobre revelações da intimidade. Mas não é assim que funciona a fofoca. Existe no mundo contemporâneo a intimidade? Ela implodiu. No entanto, a fofoca continua. Em um mundo em que todos sabem de todos e todos controlam todos, a fofoca deveria desaparecer. Mas é que a fofoca não depende da intimidade. A fofoca depende de uma narrativa que se faça parecer como um segredo. Mesmo que eu saiba que não é segredo, se tiver um cheiro de segredo, então é fofoca, e eu escuto interessado. A fofoca não é do âmbito do ser, mas do parecer.
Muitos imaginaram que o “reality show” tinha êxito por conta da exposição da intimidade. Mas hoje sabemos que aquilo que atrai pessoas para esse tipo de entretenimento são as fofocas contadas na “casa”. Vibramos ao ouvir alguém contando uma fofoca para outro. Bastou alguém pedir segredo para o outro, dentro da casa em que o programa se realiza, e então ficamos loucos para ver o programa seguinte, pois esperamos que o segredo seja quebrado em forma de fofoca. A fofoca é inebriante. Ela é um tipo de elixir da juventude.
Ouvir fofoca, contar fofoca – como esse tipo de coisa nos devolve ao ambiente pré-adolescente da escola e, enfim, nos renova. Conhecemos o fofoqueiro? Em geral não. O fofoqueiro não é aquele que todos chamamos de fofoqueiro. Ele não é do mundo simulação, mas da dissimulação. Ele é o contador que às vezes fala o que é mais banal, mas consegue uma narrativa que é contada no estilo do segredo e que, por isso mesmo, lança o ouvinte em uma cadeia de traições contínuas: espalhar o que foi ouvido.
Toda a política bem feita é a política que se realiza pela fofoca. Um político que fococa é invencível. Um político que fofoca em público é quase um deus. Centrais de fofocagem são arma da política desde os gregos até nós.
Todo romance de folhetim, toda nossa teledramaturgia, faz sucesso por meio de personagens fofoqueiros. Não o fofoqueiro anunciado, mas aquele que conta para os outros os segredos e que, então, compartilha conosco, os telespectadores, a narrativa doada. A boa novela é aquela que nos envolve porque ela nos faz parceiros da fofocagem que a trama estabelece.
A cultura sem fofoca não faz sentido. Cultura tem a ver com cultivo. A fofoca é da ordem do cultivo. Contar fofoca é cultivar parceria. Contar fofoca é esperar que o outro conte o segredo, traia a confiança, e por isso mesmo se integre ainda mais ao grupo, que, afinal, perdoa seu pecado. O pecado era contar a fofoca, repassar o segredo e, ao mesmo tempo, ficar em dívida diante do grupo. A dívida e a graça surgem juntas. O que escuta a fofoca é uma presa do grupo. Se conta a fofoca, faz o pecado. Mas todos esperam que ele conte, que faça o pecado, e o premiam o aceitando em acordo tácito: “você é um dos nossos”. Esse é o dito que não precisa ser dito.
Há quem fale que o ambiente cultural hoje é permeado por “guerra de narrativas”. Mas isso diz pouco. As narrativas só entram realmente no campo de batalha se estão no círculo da fofoca. Só há força para narrativas que, mesmo contadas em mídias de milhões de pessoas, se pareçam fofocas. Por isso é importante que a narrativa tenha sempre um elemento fantástico, algo que possa ser contestado por aqueles que se dizem racionais, escolarizados, etc., pois com isso ela escapa do que se parece com o universal. Não se faz fofoca do universal. O particular é o reino da fofoca. Quando conto algo do âmbito da racionalidade, caio no trânsito do que não quebra a monotonia, mas quando enveredo pelo que toca o outro no particular, estabeleço elos mais fortes. Aí se dá a integração. Nem posso integrar ninguém se falo o que passa por cima do particular e das identidades. Mas quando conto um feito fantástico, e que traz o ouvinte para o âmbito de um grupo acolhedor – político, religioso, de amizades etc. -, então a fofoca se completa e a narrativa que ela sustenta está com caminho pavimentado.
A fofoca é fogo em pólvora. Ela é sórdida e poderosa. Ela precisa, explícita ou implicitamente, estar no registro da frase “olha, vou lhe contar algo, não conte para ninguém”.
Paulo Ghiraldelli é doutor em Filosofia pela USP e pós-doutor em Medicina Social pela UERJ. Escreveu entre outros o Capitalismo 4.0 (CEFA Editoria, 2025). Pode ser encontrado em @papocoruja
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